O que Antoni Gaudí nos ensina com o Projeto da Sagrada Família.

O Contexto

​A Sagrada Família é, indiscutivelmente, a obra mais icônica de Barcelona e um marco mundial da engenharia e arquitetura. Mas ela carrega uma falha de gestão crítica que atrasou sua conclusão em décadas: a centralização do conhecimento.

​Quando Antoni Gaudí faleceu, atropelado por um bonde em 1926, ele não deixou um projeto executivo detalhado para a totalidade da obra. Para piorar, durante a Guerra Civil Espanhola, anarquistas incendiaram seu ateliê, destruindo a maioria dos esboços e modelos em gesso que existiam.

 

​Engenharia Reversa da Genialidade

​Hoje, para terminar a basílica, os arquitetos e engenheiros atuais não estão apenas “seguindo instruções”. Eles estão realizando um trabalho complexo de engenharia reversa.

​Sem os projetos originais, a equipe técnica precisa analisar outras obras de Gaudí,  como o Parque  Güell, Casa Batlló, La Pedrera, para decodificar a lógica geométrica e estrutural do mestre. Eles não buscam “o que” Gaudí desenhou, mas “como” ele pensava. É uma tentativa de reconstruir um algoritmo mental que se perdeu. Eles identificam padrões em outras construções e replicam isso na obra do templo.

​Isso nos leva a duas conclusões vitais para qualquer gestor de projetos, engenheiro ou líder de tecnologia hoje.

 

O Perigo de Guardar Tudo na Cabeça

​Gaudí era um gênio, mas sua metodologia de trabalho tinha um erro sistêmico: a informação crítica residia majoritariamente na intuição dele.

​No mundo corporativo e na construção civil, ainda vemos isso acontecer. Profissionais que guardam todo o conhecimento na cabeça e não o convertem em documentos ou processos claros.

​A lição: A informação precisa ser democrática, registrada e acessível. Se o sucesso do seu projeto depende exclusivamente de uma pessoa estar na sala (ou viva), seu projeto é frágil. Documentação não é burocracia; é a garantia de continuidade e escalabilidade.

 

​ O Histórico como Base de Decisão

​A equipe atual da Sagrada Família só consegue avançar porque, embora os planos da basílica tenham sumido, o histórico de outras obras de Gaudí permaneceu acessível.

​Eles usam dados históricos de outros projetos para tomar decisões presentes. Isso ilustra o poder de um histórico organizado:

​A lição: O histórico de obras e projetos passados não é arquivo morto; é um ativo do seu negócio. Quando você tem dados acessíveis sobre o que foi feito, como foi feito e quais foram os resultados, a tomada de decisão deixa de ser “chute” e passa a ser baseada em padrões.

 

Você não tem o cliente de Gaudí

​A Sagrada Família será terminada graças à tecnologia moderna, mas o custo do atraso foi imenso. E aqui vale lembrar uma diferença crucial entre Gaudí e nós.

​Reza a lenda que, quando questionado sobre a demora da obra, Gaudí respondeu tranquilamente: “O meu cliente não tem pressa”. Ele se referia, é claro, a Deus.

​A pergunta que fica para nós é: nós temos esse luxo?

No mundo real dos negócios, nossos clientes têm pressa, nós temos pressa. O mercado não espera 140 anos. Como não temos a eternidade a nosso favor, não podemos nos dar ao luxo de perder informações ou perder tempo procurando elas. Se o seu cliente tem prazos deste mundo, o seu histórico e suas decisões precisam estar acessíveis para que a sua obra tenha o sucesso da Sagrada Família, mas com os prazos cumpridos!